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A nova crise síria num editorial de Andrea Riccardi

17 Outubro 2019

SyriaAndrea Riccardi

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Coitada da Síria! Abriu-se mais um capítulo de uma guerra sem fim que dura desde 2011

Mais uma derrota para a Europa: dividida, confusa e impotente. A ofensiva também envolveu muitos cristãos que fugiram para o norte da Síria após a Grande Guerra

 

Coitada da Síria! Abriu-se mais um capítulo de uma guerra sem fim que dura desde 2011. Coitados dos curdos sírios! A região semi-autônoma do norte da Síria, o Rojava, está a desaparecer sob a ofensiva turca. Com os curdos foram assaltados muitos cristãos, que se refugiaram para cá após a Primeira Guerra Mundial e as perseguições no Império Otomano, fugindo da Turquia. O mundo de Rojava será varrido? Parece que sim, se olharmos para o que aconteceu no enclave curdo de Afrin, ocupado pelos turcos em 2018, junto com as milícias árabes, o exército sírio livre extremista e Qaedista.

Em Afrin (unido ao Rojava desde 2012), o exército livre da Síria realizou uma limpeza étnica. Os curdos foram parcialmente afastados. Os cristãos da cidade, cerca de 3 mil, fugiram e a única igreja foi queimada.
Os Yazidis, cerca de 30 mil, sofreram violências e fugiram, temendo a repetição das histórias sombrias do Sinjar, no Iraque, com a ocupação de Daesh (o Estado Islâmico). No Rojava agora é o caos.

Hevrin Khalaf, líder político curdo e ativista dos direitos das mulheres, foi assassinada. Estão a circular vídeos do brutal assassinato. Sob os golpes dos ocupantes, turcos e árabes radicais, a construção democrática realizada pelos curdos desmorona.
Cai o sistema penitenciário, que detinha em prisões ou campos os milícias do Daesh (incluindo combatentes estrangeiros) e as suas famílias em prisões ou campos. Alguns fugiram e representam um grave perigo.
Com o Rojava, os curdos, a maior minoria no Oriente Médio sem um Estado, tinham encontrado uma forma de autonomia de facto na Síria. Os soldados curdos (homens e mulheres) haviam travado uma batalha por todos (primeiro o Ocidente) contra o Daesh, deixando muitos caídos no chão.

Os americanos tinham sido seus aliados, apoiando-os com uma cobertura aérea forte e coordenada. Sabia-se que a Turquia considerava o Rojava negativamente e temia as suas repercussões na minoria curda nas suas fronteiras, mas havia a cobertura americana. A certa altura, o presidente Trump deu luz verde à invasão turca com a retirada das suas tropas. A decisão não encontra um consenso majoritário no Congresso americano. Alguns estão a perguntar-se o quão credível será a política americana no futuro, depois de abandonar um aliado na luta contra o terrorismo.
O governo de Assad está a enviar tropas para o território curdo, considerando a entrada dos turcos como uma invasão do território sírio. Os sírios travarão o avanço turco, enquanto a Rússia entra no jogo. Todavia, a região curda já terminou.

Dezenas de milhares de refugiados fogem: mais de 130 mil. A Europa aplicará sanções à Turquia. Mas nós, europeus, valemos muito pouco e Erdogan ameaça deixar entrar na Europa as massas de refugiados sírios na Turquia (apoiados por ricos subsídios da União). Desde o início do conflito, a posição dos países europeus foi dividida e mal definida. No entanto, estamos perto, recebemos - em parte - os refugiados. É uma situação que dói: especialmente para os sírios, mas também para nós, europeus. A Europa terá que sair da impotência de uma vez por todas.
Num contexto internacional, em que falta uma ordem e em que já não há um país guardião (como os Estados Unidos), é necessário que cada um assuma as suas responsabilidades.

Editorial por Andrea Riccardi na Famiglia Cristiana de 20/10/2019