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PROF. ANDREA RICCARDI FALA SOBRE A PAZ E DESENVOLVIMENTO DO PAÍS

9 Março 2019

MozambiqueAndrea Riccardi

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DE passagem pelas cidades da Beira e Maputo, recentemente, por imperativos da Comunidade a que está ligado – a Comunidade de San’t Egídio - o Prof. Andrea Riccardi acedeu falar ao Notícias sobre a paz em Moçambique, quando a 4 de Outubro do ano em curso se assinalam 27 anos da assinatura do acordo de Roma, comunemente conhecido por AGP. Andrea Riccardi “viveu” o próprio acordo de Roma e, na entrevista que se segue, é categórico ao afirmar que o AGP é ponto de equilíbrio da democracia no país. Sem muitos rodeios, o Prof. fez uma contextualização da sua relação com Moçambique, afirmando que acompanhou a história do país logo após a independência e o conheceu no princípio dos anos 90, na vigência da guerra fria. Falou do sofrimento a que o povo moçambicano esteve votado durante a guerra dos 16 anos. Disse que em cada ano volta a Mocambique e o que constata actualmente é que o país desenvolveu e internacionalizou-se, a educação das pessoas cresceu, apesar dos problemas que são enormes. “Não podemos ser pessimistas”, remata.

NOTÍCIAS (N) - Disse numa entrevista em 2017, que acreditava que o Acordo Geral de Paz não fosse uma história do passado, mas sim um método por meio do qual Moçambique vive. Pretendeu dizer que o AGP não tem prazo?

Andrea Riccardi (AR) – A história dos últimos dois anos demonstrou que tinha razão. Eu acredito que o acordo de 1992 é uma etapa histórica de Moçambique. No fundo, a história de Moçambique contemporâneo é feita através da luta pela independência, mas o Acordo Geral de Paz acrescentou um facto fundamental: a democracia, o pluralismo, mas também a capacidade de negociar nos momentos difíceis e nos momentos de crise. Recentemente, vimos a capacidade do Presidente Nyusi de negociar com a Renamo. Cada democracia é imperfeita, mas cada democracia deve encontrar um ponto de equilíbrio. Para mim, o Acordo Geral de Paz representa esse ponto de equilíbrio. Eu sou muito favorável a lembrar que 4 de Outubro representa um momento de memória, quando a família moçambicana foi dilacerada por uma guerra violenta e, em 1992, reencontrou a unidade, através do método do diálogo.

N-O Prof. Também disse que o diálogo e a paz já faziam parte do DNA dos moçambicanos. Sendo Andrea Riccardi uma figura incontornável quando se fala da paz em Moçambique, que avaliação faz do processo ao 27 ano do AGP?
(AR) – É preciso fazer muito. Há muitas questões a serem resolvidas. Podemos ver, por exemplo, o problema das cidades, a enorme urbanização que houve, as questões sociais, a educação. A antiga sociedade moçambicana passou, de certa forma, mas nasceu uma nova investida pelos fluxos da globalização. Moçambique era um país fechado, tornou-se aberto aos ventos da globalização, da informação económica e financeira. Tudo mudou, mas há uma sociedade civil a ser fortificada e renovada. Moçambique é um país jovem e de jovens. Neste sentido, lembrar o dia 4 de Outubro é importante.

N- O Governo e a Renamo assinaram o ano passado um memorando de entendimento que preconiza, fundamentalmente, a desmobilização, desmilitarização e reintegração dos homens deste partido. Acredita na desmilitarização da Renamo?
(AR) – Eu acredito que os termos do acordo são muito importantes, porque são fruto do diálogo. Acho que são importantes para um processo de pacificação da sociedade. Creio que o interlocutor da Renamo, com a morte do presidente Dhlakama, que eu conheci muito bem, está agora a reflectir a sua linha política. E acho que o Presidente Nyusi teve uma atitude positiva. O método de Roma é procurar o que une e pôr de lado o que divide. Isto é importante, no tempo de grande polarização como o nosso.

N- O que recomendaria ao Governo e à Renamo para que o Acordo Geral de Paz seja mantido no espírito e na letra
(AR) – Eu cha mo a isto cultura política. A política não é só prática, é cultura. Neste país tivemos uma cultura política que era a cultura ideológica da Frelimo, hoje devemos construir uma nova cultura política. E nesta nova cultura política, um capítulo importante é a viragem de 1992. Também porque a alfabetização teve um grande desenvolvimento, os jovens têm acesso à internet, a mentalidade mudou. Devemos realizar uma nova cultura democrática. Estou convencido que em África, na Europa, como na América Latina, precisamos de pensamento e de visão.

N- Acredita numa Renamo sem armas e a competir com base em regras de um Estado de Direito democrático?
(AR) – Parece-me que já o fez e estou convencido que vai fazê-lo, porque o futuro deste país não é nas armas, mas num crescimento da sociedade civil. Olha, uma economia que se torna complexa como a moçambicana deve ter uma sociedade complexa.

N-  Disse uma vez que continuava a olhar o futuro de Moçambique com esperança? Que indicadores tem para esse optimismo?

(AR) – Compreendo que o desenvolvimento de Moçambique não se reflectiu nas camadas mais pobres da população e que a distribuição da riqueza e a justiça social ainda permanecem um objectivo importante, como é o fortalecimento dos serviços da saúde, mas eu conheço Moçambique do interior. Estou honrado de ser um cidadão honorário moçambicano, pelo facto de ter sido nomeado há mais ou menos 10 anos. A comunidade de Sant’Egídio é uma parte da sociedade civil de Moçambique. Aqui nós não somos estrangeiros. Temos por volta de 150 comunidades de Sant’Egídio em todas grandes cidades, nos distritos e também nas aldeias. Os nossos membros realizam um serviço voluntário com os pobres. Penso nos idosos e nos necessitados, penso nas escolas da paz para as crianças. Sant’Egídio tem importantes estruturas de cuidados para a Sida, realizámos nos últimos anos um grande centro na cidade da Beira, que eu acho muito importante e completamente gerido por moçambicanos. Temos centenas de moçambicanos que trabalham no projecto DREAM. Em Maputo temos três centros. Conhecemos bem os problemas da saúde do país. Outro aspecto é o nosso compromisso com o BRAVO, que é uma organização para o registo civil das crianças. Nós sentimo-nos muito ligados a este país. Neste sentido, respondo à sua pergunta, dizendo que não sou pessimista. Não ignoro os problemas, mas vejo também a esperança.

N- O Prof. Riccardi é fundador da comunidade de Sant’Egídio, em Roma. Sant’Egídio está ligada à Igreja Católica. O Papa Francisco é considerado um reformador de alguns princípios da Igreja Católica. O que acha da abertura da Igreja Católica ao mundo?

(AR) – Papa Francisco é um reformador no sentido evangélico da palavra. O nome Francisco é o símbolo da reforma evangélica. Este parece-me o seu plano, o seu desenho. Uma igreja que sai das instituições, que encontra as mulheres e os homens e sobretudo os pobres. O Papa Francisco colocou os pobres no centro da igreja. É um Papa do diálogo. É muito interessante a viagem que ele fez aos Emirados Árabes Unidos recentemente, o encontro que teve com o grande Imam de Alazara, no quadro do encontro inter-religioso ao qual participaram também judeus e religiões orientais. Isto é um facto interessante. O Papa quer trabalhar pela paz e a paz se alcança através do diálogo. O mundo mudou muito, é um mundo da guerra em pedaços. Assim diz o próprio Papa Francisco. O pontificado do Papa Francisco é ao mesmo tempo novo e antigo. É antigo como o evangelho, mas é novo para as esperanças, as mudanças que leva consigo.

N-  O conflito entre os católicos e os muçulmanos tem “barba branca” e ainda permanece nos dias de hoje. Acredita que os cristãos e muçulmanos pode m coexistir pacificamente na fé?
(AR) – Eu acredito que cristãos e muçulmanos podem viver juntos. É absolutamente arbitrário, instrumental por exemplo falar em Moçambique de um conflito entre cristãos e muçulmanos. O islão africano tem uma tradição de tolerância. Então, eu acredito que o grande desafio é conviver juntos ou morrer todos.

N- Muitos países africanos tornaram-se palco de guerras entre religiões. Isso não é o mesmo que dizer que essa coabitação não é possível?
(AR) – Eu penso que acabaram as ideologias e os senhores da guerra procuram ideias e utilizam as religiões. Para mim, o que acontece na República Centro Africana não é uma guerra de religião. Não me parece que no Sudão do Sul haja uma guerra de religião. Temos um terrorismo em África que utiliza a religião. Isto é preocupante. Por isso, os líderes religiosos cristãos e muçulmanos devem juntos construir uma plataforma de paz. O islão não é uma religião que tem uma vocação ao conflito. A mais alta instituição islâmica, o Imam de Alazara declarou isso muitas vezes, afastando-se dos terroristas.

N- A pobreza em África é um terreno fértil para a afirmação desses terroristas que agem em nome da religião, aliciando sobretudo jovens com valores monetários e promessas de emprego. Como vê este problema?
(AR) – A pobreza é um terreno perigoso. A luta contra a pobreza é uma luta para a justiça mas também para a paz. Se não há o extremismo religioso também há máfias e as máfias estão em todo o mundo, não é só uma característica italiana. As máfias podem usar jovens pobres. Por isso, quando falo duma sociedade civil sã, penso numa sociedade que luta contra a pobreza.

N- Acha que a geração de jovens africanos tem alguma perspectiva de futuro risonho, tendo em conta que a sua grande maioria é afectada pela pobreza?
 (AR) – O tema que toca é muito interessante. África é um continente jovem, um continente de jovens e os jovens têm o problema do futuro. Nós os mais idosos afastámos o futuro. Os jovens querem deitar-se dentro do futuro. E qual é o futuro que eles têm? Esta é a grande pergunta. Eu falei com muitos jovens emigrados na Europa que o ano passado atravessaram o Deserto de Sahara. Acho que a pressão dos jovens é um grande problema para os países africanos, mas é preciso que todos trabalhem. A questão juvenil é talvez a primeira questão social em África.

N- Como vê a questão do racismo do homem branco para o homem negro? Acha que se pode construir um mundo justo, numa relação em que há rejeição do outro por causa da sua condição racial?
(AR)  - A história de racismo existe. Em Moçambique conhecem bem essa história. Conhecem a história dos portugueses, a história dos assimilados e todas as outras vicissitudes. As raças não existem, existem as histórias, as culturas. Um dos melhores jogadores italianos é africano, mas tem um apelido italiano. Eu acho que o mundo do futuro será um futuro em que etnias diferentes viverão juntas. Quando eu era criança na minha cidade de Roma, que era uma capital importante, os únicos africanos que era possível encontrar eram seminaristas. Hoje, Roma é uma cidade inter-étnica. Não se deve utilizar a etnia para fazer guerra ao outro.
 


[ FELISBERTO ARNAÇA ]