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O Papa em Lesbos, cinco anos atrás, abraçou os refugiados de Moria. Em Vatican News, uma entrevista com Daniela Pompei e Nour Issa

16 Abril 2021

Pope FrancisMIGRANTSLesbos

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Aniversário da histórica e comovente visita de Francisco entre os migrantes da ilha grega, juntamente com o Patriarca Ecuménico Bartolomeu I e o Arcebispo Ortodoxo de Atenas e toda a Grécia, Ieronymos. Era o dia 16 de Abril de 2016. Um momento de solidariedade, humanidade e fraternidade profunda com aqueles que, ao fugir da guerra e da violência, atravessam o Mediterrâneo e o Egeu para se salvarem

Francesca Sabatinelli – Cidafe do Vaticano

A viagem de Francisco a Lesbos foi marcada pela tristeza, não pela alegria do encontro. O Papa, mesmo antes de tocar em solo grego, antecipou assim aos jornalistas a bordo do avião, a sua visita aos refugiados e migrantes do campo de Morìa, aos protagonistas da "maior catástrofe humanitária desde a Segunda Guerra Mundial", que fugiram das guerras e da violência. Francisco, o Patriarca Bartolomeu e o Arcebispo Ieronymus, três líderes religiosos, um ao lado do outro, caminharam entre as tendas do inferno daquele campo, abraçaram aquela humanidade ferida para a tranquilizar com a sua proximidade e para pedir ao mundo que não fechasse os olhos ao sofrimento daqueles forçados a "fugir de situações de conflito e perseguição", daqueles que "não são um número mas um rosto e um nome e uma história":  

 "Viemos para chamar a atenção do mundo para esta grave crise humanitária e para implorar a sua resolução. Como homens de fé, desejamos unir as nossas vozes para falar abertamente em vosso nome. Esperamos que o mundo se torne atento a estas situações de necessidade trágica e verdadeiramente desesperada, e que responda de uma forma digna da nossa humanidade comum".

Francesco incontra i migranti di Moria, 16 aprile 2016
Francisco encontra os migrantes de Moria, 16 de Abril de 2016

O convite de Francisco para "não perder a esperança"

"Francisco, nessa viagem na Primavera de 2016, não esqueceu de mencionar o horror das mortes no mar, de crianças que nunca chegaram, de "vítimas de viagens desumanas e sujeitas à opressão de torturadores vis". Também não esqueceu a generosidade do povo grego, com a sua capacidade de responder ao sofrimento dos outros "apesar das graves dificuldades a enfrentar", mantendo "corações e portas abertas". Francisco exortou a comunidade internacional a fazer o mesmo: a Europa, casa dos direitos humanos, deveria ter seguido o exemplo do Bom Samaritano, ao "mostrar misericórdia para com os necessitados", deveria ter trabalhado para remover as causas desta dramática realidade. "Não basta limitar-se a perseguir a emergência do momento", foram as palavras do Papa, "mas é necessário desenvolver políticas abrangentes, não unilaterais", parando, além disso, "a proliferação e o tráfico de armas e aqueles que perseguem projectos de ódio e de violência". Não percam a esperança, foi a mensagem que o Papa deixou aos hóspedes de Moria, porque perante "as tragédias que ferem a humanidade, Deus não é indiferente, ele não está distante":

"Esta é a mensagem que desejo deixar-vos hoje: não percam a esperança! O maior dom que podemos oferecer uns aos outros é o amor: um olhar misericordioso, a preocupação de nos ouvirmos e compreendermos uns aos outros, uma palavra de encorajamento, uma oração. Que possam partilhar este presente uns com os outros".

A declaração conjunta e o apelo à solidariedade

IOs três líderes religiosos deixaram Lesbos confiando à humanidade uma declaração conjunta, olicitando, para a tragédia humanitária vivida pelos migrantes, "uma resposta de solidariedade, compaixão, generosidade e um compromisso imediato e efectivo de recursos" porque a "protecção das vidas humanas é uma prioridade". Apelaram à comunidade internacional, exigindo a eliminação de rotas de viagem perigosas através do Egeu e de todo o Mediterrâneo, para providenciar "procedimentos de reassentamento seguros", para tornar "a protecção de vidas humanas uma prioridade e para apoiar, a todos os níveis, políticas inclusivas que se estendam a todas as comunidades religiosas". As últimas palavras de Francisco foram as de uma oração pelos migrantes, quando os confiou à misericórdia de Deus, enquanto o seu último gesto foi profético: ter três famílias do campo de Karatepe a bordo do seu avião, um total de 12 pessoas, incluindo seis menores. Nour, uma síria como todos os outros, estava a bordo com o seu marido Hasan e o seu filho de dois anos.

A história de Nour e Hasan

Aos 31 anos de idade, tinha fugido com a sua família da periferia de Damasco. Da Turquia, foi um barco de borracha que os trouxe para Lesbos. Hoje Nour Essa e a sua família vivem em Roma, onde é bióloga no hospital pediátrico Bambino Gesù. "Agradeço ao Papa Francisco - conta hoje ao Vatican News - por tudo o que ele fez por nós, por ter mudado as nossas vidas e o nosso destino". Nour ainda tem muito claras na sua memória as imagens daquela partida para Roma, decidida apenas 24 horas antes. Lembra-se das etapas do voo, o Papa "sorri sempre", mostrando aos jornalistas a bordo "um desenho feito por um rapaz que estava em Moria". Todo o pouco que sabia do Vaticano ela, uma muçulmana como todos os outros, tinha aprendido com a televisão.

Escute a entrevista a Nour Essa

O papel da Comunidade de Sant’Egidio

Artífice da partida de Nour e dos outros foi a Comunidade de Sant'Egidio, à qual o próprio Papa, apenas alguns dias antes, tinha confiado o seu desejo de regressar a Roma com algumas famílias de refugiados. "Foi uma emoção muito forte para todos nós", recorda Daniela Pompei, responsável da Comunidade pelos serviços aos imigrantes, refugiados e ciganos, que voou apenas três dias antes da visita de Francisco à ilha de Lesbos para identificar as pessoas, as mais vulneráveis, que partiriam com o Papa.

Escute a entrevista a Daniela Pompei

Nunca tínhamos pensado - recorda Pompeu - que iríamos entrar no avião do Papa, só soubemos na noite anterior, pensávamos que iríamos partir num voo regular". Em apenas três dias, no campo de Karatepe, foram identificadas as famílias mais vulneráveis com crianças pequenas. Todas as famílias de religião islâmica, um ponto que foi também objecto de perguntas de jornalistas a bordo do avião papal. Pompei recorda a resposta de Francisco: "O Papa foi muito claro: quando se fala de pessoas que fogem da guerra não se olha para o discurso religioso, é preciso salvar vidas humanas. O que prevaleceu foi a ideia de salvaguardar a vulnerabilidade que é representada pelas famílias e crianças muito pequenas que não podem viver numa situação de acampamento".

Lesbos, uma tragédia sem fim

Foi sem dúvida a viagem do Papa a Lesbos que abriu o primeiro corredor humanitário da Grécia. Desde então, a Comunidade de Sant'Egidio nunca abandonou aquele país, tal como o próprio Francisco nunca o abandonou.  "Tem-no no coração, reza por Lesbos e pelos refugiados que lá se encontram". Tanto que depois de ter encontrado Andrea Riccardi, o fundador de Sant'Egidio, que tinha acabado de regressar da ilha grega, Francisco decidiu enviar o Cardeal Konrad Krajewski, esmoler papal, a Lesbos, que lá foi em 2019, uma viagem que em poucos meses levou à chegada a Itália de 43 pessoas, graças à acção conjunta entre a comunidade de Sant'Egidio e a Esmolaria Apostólica. Enquanto a Europa continua no seu silêncio sobre a tragédia humanitária de Lesbos e dos seus habitantes mais vulneráveis.

No Vatican News as entrevistas a Daniela Pompei e a Nour Issa

(Foto de Vatican News)